domingo, 20 de setembro de 2015

Medo do Passado

      Faz um tempo que não escrevo aqui. Tem acontecido tanta coisa! Quantas disciplinas meu Deus! Quanta briga de ego entre os alunos!
Certo dia, fui visitar uma amiga que estava fazendo aniversário. Dormi na casa dela e um dia depois, em uma tarde, ela ficou rememorando o seu passado. Logo lembrei do meu, das coisas boas que não vão voltar, da minha infância com gosto de doce de leite, dos meus amigos que não retornaram, dos entes queridos que se foram, da solidão atual... De repente, ficou tudo obscuro. A vida pode ser tão triste! Não gosto de lembrar meu passado. Dói! Eu, por vezes fujo dele. Será que tenho medo do meu passado? Ai você se pergunta: como uma estudante de História pode ter medo do próprio passado? E o objeto de estudo?

      

      É, o passado é algo muito delicado de se tratar, principalmente se for o nosso. Uma vez, eu vi, em uma revista, que as imagens demoram alguns milésimos de segundos para chegar ao nosso cérebro e serem identificadas. Então tudo que nós olhamos de certa forma é passado. Ter medo do passado consiste, de alguma forma, também em ter medo de enxergar ou ter entendimento de algo.
      
       Em um artigo sobre a formação do IHGB (Instituto Histórico Geográfico Brasileiro),  - Nação e Civilização nos Trópicos, Manoel Luís Salgado Guimarães - dissertou-se curiosamente sobre a ligação da história com os contos de terror, o pessimismo do século XIX, não aprofundando tanto o assunto. A História veio para salvar. Para iluminar o obscuro, o breu, as histórias fantasmagóricas que surgiam desde então. A História visava o progresso! O futuro será bem melhor do que o agora que é bem melhor do que passado. Evolução, meus amigos! Perceberam? O passado, seguindo essa lógica, está nos primórdios do desenvolvido. A história vinha para trazer-nos a verdade sobre o que se passou. Para separar o verdadeiro, do mito, do religioso ou fantasmagórico.
      
       Entretanto, nossa visão sobre o que se passou muda constantemente. Tanto nossa visão, quanto os questionamentos. Nós olhamos o passado com os olhos do presente. Vocês nunca mudaram sua visão sobre a sua infância, por exemplo? Ou sobre aquele romance lindo que agora se desfez? Sobre seu primeiro relacionamento ou sobre a postura que seus pais tomaram em determinada época da sua vida? Ou sobre seus próprios pais?
Quando estamos mal em determinado ponto de nossa vida, nos perguntamos: “onde será que eu errei?” Então vamos relembrar tudo para saber ou sabemos exatamente onde foi e ficamos “porque eu não fiz aquilo? E se eu não tivesse feito isso? Estaria tudo melhor agora…” A resposta é: não sabemos se tudo teria sido realmente melhor se você tivesse tomado posturas diferentes ou se outras pessoas tivessem tomado. Talvez nós nunca saberemos! O erro não está no passado, e sim, no presente. Se errássemos no passado e, por ironia do destino, nosso presente estivesse ótimo, não estaríamos tentando mudar o que já passou ou lamentando o que já foi feito.


      O que importa é como cheguei e pra onde vou. É certo que a efemeridade dos nossos tempos pós-modernos ainda me assusta, mas como diz José Honório Rodrigues, em Vida e História, não é o passado pelo o passado, não é uma adoração de como a minha infância era ótima e agora ta tudo depressivo, não é também uma certeza evolutiva de que o agora é sempre melhor. Não! O passado faz parte de nós. Os erros, os acertos, as felicidades, tristezas, raivas, a nossa personalidade que com certeza deve ter mudado… Os retrocessos. Ter medo do passado é ter medo de si mesmo. E parando para refletir: quantas pessoas não têm medo de si mesmas? História é autoconhecimento, faz parte da nossa identidade. Contrariando Clarice Lispector em “A hora da Estrela” onde ela diserta que a consciência da nossa própria existência é como um soco no estomago, pra mim, a noção de identidade é o que da suporte para uma liberdade maior e, conseqüentemente, a felicidade.