sábado, 5 de dezembro de 2015

Sonho

Não quero sonhar sozinho,
Preciso da tua companhia.
Juntos no nosso ninho,
Longe da cruel melancolia
E perto do real caminho.

Sonhar sozinho é apenas
um sonho, sonhar juntos é
o começo da realidade.

Miguel de Cervantes ( Dom Quixote)

Desenterrando uma flor



Há uma flor no meu jardim
Há um jardim na minha flor
Daria tudo pra entrar dentro dela e ver
Quantas dela diferentes ela poderia ser

Uma pedra na visão
Uma imensidão no olhar
Todos a vêem, muitos se encantam
Somente ela que não.

A superfície é sempre mais sólida.
E o interior não é lido.
Só no final, eu descubro.
Nem vinho, nem luz.

É só uma rosa que nada traduz.
Talvez, nada realmente foi vivido.


  Shelle

Conversa com o tempo

Era uma noite escura e chuvosa, fazia frio. Um homem cabisbaixo e atarracado divagava pela madrugada, andando com um guarda-chuva, sem pressa . Notava-se a expressão dele de preocupado e ao mesmo tempo calmo e sereno.
Ele se direcionou a um telefone público, discou um número e no outro lado da linha, atendia um rapaz magro com um olhar terno e supreendido em uma casinha simples, mas acolhedora.
- Alô?
- Olá! Como vai? Meu nome é historiador e eu queria falar com o senhor tempo!
- Olá! É a sua primeira vez, não é?
- É siim!! Como soube? Eu quero saber como estão as coisas…
- Porque você não me reconheceu de cara. Todos reconhecem a minha voz quando ligam pra mim e eu atendo. Aliás, é tão raro alguém ligar... A maioria de vocês quando ligam pra mim é aquela melancolia! “Meu Deus, estou velho…!” Ou “Meu Deus, que saudade dos meus tempos de criança…” Assim fica parecendo que só trago dor. Em suma, a maioria das pessoas não sabem lidar comigo. Mas me pergunte rapaz, o que você quer saber?
- Eu queria saber como vai a vida?
- Passageira.
- E o passado?
- Tá aqui no sofá, assistindo TV. – ouvia-se lá no fundo alguém gritando – É OUTRO HISTORIADOR, TEMPO??? – o tempo colocou o telefone no colo do ombro e gritou também: ÉÉÉÉ!!
- MANDA ELE FALAR COM AS MINHAS FONTES!
O  tempo gentilmente recolocou o telefone no ouvido.
- Bem, ele mandou você ir pras fontes, como sempre…
- é eu sei como é… Não da pra ter um contato direto com ele… Mas e a memória?
- Ah, ela saiu de novo. Ela é assim mesmo, ninguém consegue prende-la. Uma hora ta aqui, outra hora não e quase sempre aparece com um visual diferente… Dizem que ela é rebelde, mas eu só acho ela espontânea demais
- Sei como é… kk e o mundo?
- pêra lá… O mundo é muito grande! Vc quer que eu responda como vão as 7 bilhões de pessoas?! É tudo muito heterogêneo pra cada um, rapaz.
- Oh, desculpe…
- Tudo bem, mania de historiador de primeira viagem… Daqui pra lá, se você estudar direitinho, você consegue fazer as perguntas recortadas. Essa é a chave da porta do quarto da Clio.
- A Clio ta em todo lugar, mas eu tenho que procura-la. É tão estranho! Rs’ e você?
- Eu? Eu sempre vou estar aqui. Seja limpando os móveis, mudando a casa toda ou jogando poeira em todos os lugares… Não importa o que aconteça, mesmo se você não estiver mais, eu sempre vou estar aqui, organizando, bagunçando, mudando tudo.

Um conforto e uma inquietude invadiram o historiador no mesmo momento, o dia amanheceu, a chuva parou e finalmente ele se percebeu como agente da história.

- Obrigado…
   
Shelle

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Indas e vindas de uma interpretação

René Magritte - A traição das Imagens

           Ainda me lembro dos meus tempos de 5ª série, da professora de artes super religiosa e dessa imagem nos meus livros. É curioso! Depois de um tempo, no 2º ano do Ensino Fundamental, tive de novo essa imagem no meu livro didático, mas dessa vez, contextualizando-a na disciplina de literatura.
            Engraçado que mesmo sabendo em que o Magritte estava vinculado, seu tempo e corrente artística, eu não entendia o que era isso…
          “Tá, não é um cachimbo, ok, mas o que é, então?” Kkk Falavam tudo vinculado a figura, menos o significado que o artista quis passar. Eu ficava imaginando mil coisas: “ah, na verdade ele quis desenhar uma montanha!”  “Já sei: ele quis alertar sobre problemas no pulmão! Isso não é um cachimbo, é um câncer…”
          Pra ser sincero nunca gostei muito dessa pintura. Eu não entendia e me incomodava o fato de não saber o que era aquilo… Só no meu segundo semestre da faculdade que fui ler um livro da Pesavento e me deparei com a figura de novo, mas finalmente com uma explicação: isso não é um cachimbo, é a representação de um. E é disso que se baseia a apaixonante História Cultural: representações. Bem, atualmente, eu acho a pintura genial e instigante… Mas como eu não tive essa interpretação antes?! .-.