terça-feira, 6 de setembro de 2022

Mestrado, cabelos brancos e espinhas.

    

    Não escrevo aqui desde 2019. É bom voltar. Será que voltei? Ao longo desses 4 anos, me descobri uma pessoa transmasculine, passei no mestrado, me batizei na Umbanda. Agora estou no segundo ano de mestrado, na fase da escrita. Aquela fase bem tensa antes da qualificação. 

    No domingo, farei meu aniversário de 27 anos. Na minha cabeça ainda parece que tenho 24. Esses anos de pandemia passaram muito rápido. Passaram voando. Me sinto velho. É curioso se sentir velho sem ser. A temporalidade pras pessoas trans é diferente. Temos 2 puberdades. Imaginem só! É como se fosse 2 adolescências: uma de mentira que você é infeliz e confuso e a outra que você finalmente se encontra. É aquela sensação que a felicidade é real, o contentamento e a auto compreensão são possíveis. 

    É muito bom saber que as coisas são possíveis. Tive dois encontros comigo mesmo: um quando entrei pro curso de história e outro quando me batizei na Umbanda. A Umbanda é caridade, amor e a história é arte e ciência. As duas me completam.

    Minha tia diz que as pessoas pesquisam pra se resolver. A problemática é histórica e individual, sempre. Universitário tá sempre se pesquisando, mesmo quando o assunto é economia. 

    Acho chato falar de censura justamente porque a censura atribuída a mim é bem mais extensa e externa. Sempre quero me afastar de gente que não me deixa ser eu mesmo. Era pra ser comum isso, mas muitas pessoas ficam. Ficam mesmo quando machucam. 

 

 

Existem tantas coisas que não entendo.

Tanto à ler em tão pouco tempo

Não quero ouvir um depois piora. 

Quero ouvir um eu estou aqui 

Mesmo que depois, em algum momento, 

Você vá embora. 

Quero sorrir enquanto respiro ofegante com a boca

Escrever é como uma fragmentação do espírito.  


    O mestrado deixa a gente com cabelos brancos, realmente, mas feliz, comendo besteira. Me sinto meio misturado.

 

 


domingo, 24 de novembro de 2019

Coerência

     Sozinha, ela caminhava um percusso que se propunha minimamente à dois. O espaço era silenciooso e calmo, mas ela sentia muitos barulhos provenientes de dentro dela. Tentava silencia-los. Sentia mais dor.
        Como se ela não tivesse mais pele, cada vez que ela queria ser forte, se sentia mais frágil. Queria sumir, mas não tinha motivo pra chorar. Começara a tentar ter a si mesma e decidiu que seria escutada. Mesmo que tenha que se reinventar completamente. Seria escutada, mesmo que as pessoas não concordem em nada, iria falar. 
        O processo é longo, diário e, por incrível que pareça, solitário.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Apresentação

            Esse ano de 2019 trouxe várias surpresinhas pra gente, boas e ruins, dentre elas: me formei. Depois que a gente se forma é como ganhar um jogo que você achava que não iria acabar. A História foi por muito tempo meu porto seguro e meu inferno, e agora terminei o curso.
            A gente fica meio desorientado e sem emprego, mas tal hora a gente arranja um colégio. Ta escuro, mas a gente canta. Então, meu novo foco de pesquisa é História das homossexualidades no Brasil. Sim, gente viado e sapatão também são agentes históricos e é por conta desse silêncio ensurdecedor em relação a nossa história que vou pesquisar, sim. 
          Vocês vão se surpreender com o que aconteceu conosco e eu não estou falando de Call me by your name ou as novelas da Sarah Waters. Tô falando de realidades bastante contraditórias, de pessoas que mesmo sabendo que prejudicam todo um grupo assumem posturas conservadoras e moralistas. Falo de censura como uma das receitas pro sucesso e a ruína. Falo de Ditadura Militar, das bee se juntando pra resistir, brigando umas com as outras, do governo invadindo a casa das pessoas pra prende-las por "atentado ao pudor". Eu falo de tanta coisa.
            Vou registrar os livros que achei mais interessantes, meus avanços nas pesquisas e minhas loucuras antes das seleções. A gente sabe da nossa própria lucidez. É por isso que a gente continua.
       
Me deem uma chance. Aposto que vocês vão me curtir :*

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Delírio

Liliana Vess, planenalta. Magic.

- Eu me apaixonei pela Morte.
-Oi?
- É isso que você ouviu. Estou apaixonada pela Morte.
- Ana, você enlouqueceu de vez. Eu sabia que mandar você pro teatro ia...
- Dançar com a morte foi a experiência mais enriquecedora que já tive. – Ana falava olhando fixamente pro nada. Rendida, zumbificada, encantada. – Ela é linda, michelle. Meu Deus, que mulher linda.
- Além de tudo é um relacionamento lésbico? (risos)
- Você é muito insensível. Não sei porque eu vim aqui falar isso pra você.
- Vocês já transaram? (mais risos) Como foi? Com os dedos? Cortou as unhas direitinho?
          Ana fechou a cara. Com um semblante sério e antes de ir embora disse:
- Não vou ficar aqui me explicando pra uma pessoa que não sabe me ouvir. Pra você, sou só um poço de sentimentos. Me sinto falando com o vento. Nem sei se você gosta das minhas desgraças ou tem empatia mesmo. Na real, eu não sei quem você é.

            Ana sentia o vento acariciar o seu rosto, conjuntamente com o sentimento de solidão e paz quando saiu andando da casa de Michelle. As passagens do dia, os momentos sucessivos de ócio e dor, o chiado da cabeça que pensa mais do que manda agir, a vida é uma caminhada e os seus pés doíam. Até que ponto nós conhecemos as pessoas?

                                                         ***

          Eu estava deitada no sofá, só de calcinha, à noite. Estava escuro em mim e eu não conseguia nada. Queria me agarrar a tudo que se afastasse de mim, porque eu era noite. Não aguentava ser noite, porque era muito denso. Me sufocava, me consumia, então resolvi fazer coisas que me preenchiam de algo que não sabia ao certo o que. Talvez, fosse cereja. Um suco de cereja, líquido, doce e que eu nem sei se existe mesmo. Foram tantas coisas! Antes dava certo, mas agora, eu terei que escolher. Tudo se dissipou no ar.
Dói.
          Me enrolei com a vida e agora estava chorando. Ela chegou. Abriu a porta da minha casa, junto com uma brisa fria e leve. Com um vestido preto e uma confiança incomum, ela me chamou. “Vem comigo, Ana”.
- Quem é você? A gente se conhece? Como você entrou? – tava assustada, mas sentia algo que não sabia o quê. Uma certa vibração no meu corpo que me levava a ela.
- Você sabe que me conhece, só não me aceitou ainda. – falou a Morte com um sorriso malicioso. – Vem, Ana. Caminha comigo só essa noite.
          E com toda a desconfiança que uma mulher pega de surpresa no seu apartamento teria, ela foi. Depois de vestir uma roupa, Ana andou de mãos dadas. A Morte era delicada: sorria pra mulher enquanto ela estava abismada com tudo o que iria perder.
- Não trabalhe com contra fatos.
- mas, o mundo está cinza. – a morte mudava as cores da noite por onde ela passava. Uns dizem que é manipulação, para outros é apenas uma mudança de perspectiva, mas nada impede de serem ambas.
- Criança, - a Morte colocou a mão no rosto de Ana – o mundo sempre foi cinza... Porque se obriga a ser sol quando se sente tão vulnerável?
- Eu não aguento o peso da noite. Eu não consigo me suportar. Tenho medo de irem embora e me deixarem só.
          A Morte parou e ficou de frente pra Ana. – dança comigo? – ela estendeu a mão para Ana e as duas colaram seus corpos. Estavam em uma praça vazia. Era por volta de 3:00 da madrugada e uma música profunda começou a tocar. Não chegava a ser mórbida, mas invadiu a alma de Ana de uma forma em que a fez ter uma consciência diferente do próprio corpo e de como ela estava tratando ele.
          Quando as duas pararam de dançar ficaram se entre olhando.
- Nunca imaginei que a Morte pudesse ser tão leve.  
- Eu sou apenas uma passagem de tempo. Geralmente, as coisas ficam mais pesadas quando não aceitam que o tempo muda e que são exigidas novas posturas para novas etapas da vida.
- Você é tão linda. Porque alguém não te aceitaria? – Sussurrou Ana, encantada com o vazio.
          A Morte acariciou os cabelos da mulher com suas mãos frias e a beijou languidamente. Apertou seu corpo contra o da menina com sofreguidão e o que Ana sentira como alívio à princípio, virou desespero. Ela sentia sua energia ser drenada de uma maneira frenética e quase desmaiou de angústia. Empurrou a Morte com o resto de força que sobrou e caiu.
- Entendeu, Ana? Eu machuco. Eu sou assim. Não posso chegar tão perto.
- Você é um monstro? – disse Ana com muito esforço, empalidecida.
- Não. Eu sou cinza, meu amor.
- Eu gosto de você, mas você me machuca...
- Os finais doem.
- Você é o fim?
- Eu sou o fim e o começo. Eu represento suas decisões.
- Eu quero ir pra casa.
- Mas você já está.
          De repente, Ana se viu sozinha em sua sala novamente, mas dessa vez com o lençol dentro de suas mãos e o que estava espalhado, junto em uma pilha de papéis. A cor do seu corpo e a sua energia voltaram ao normal. Ela jogou metade da pilha de sonhos no lixo.
- Tá passando da hora de organizar isso aqui...

  Shelle.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Desencanto





Talvez, as estrelas nem sejam tão incríveis assim, quando vistas de perto.

Até elas tem seu lado escuro... E o que não tem? 
Elas estão longe... Elas sempre estão tão longe... 
Queria que elas ficassem perto, pra ver de que são feitas e o que as fez ficar assim.
Talvez, elas insistam em ficar distantes só pra manter o brilho... 
Algumas pessoas olham pras estrelas para se encontrar, mas eu só me perco mais entre um brilho e outro refletido do sol. 
Talvez, eu não devesse olhar tanto pra elas, afinal, são só estrelas, distantes e sempre longínquas estrelas.

  Shelle

sábado, 5 de dezembro de 2015

Sonho

Não quero sonhar sozinho,
Preciso da tua companhia.
Juntos no nosso ninho,
Longe da cruel melancolia
E perto do real caminho.

Sonhar sozinho é apenas
um sonho, sonhar juntos é
o começo da realidade.

Miguel de Cervantes ( Dom Quixote)

Desenterrando uma flor



Há uma flor no meu jardim
Há um jardim na minha flor
Daria tudo pra entrar dentro dela e ver
Quantas dela diferentes ela poderia ser

Uma pedra na visão
Uma imensidão no olhar
Todos a vêem, muitos se encantam
Somente ela que não.

A superfície é sempre mais sólida.
E o interior não é lido.
Só no final, eu descubro.
Nem vinho, nem luz.

É só uma rosa que nada traduz.
Talvez, nada realmente foi vivido.


  Shelle