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| Liliana Vess, planenalta. Magic. |
- Eu
me apaixonei pela Morte.
-Oi?
- É
isso que você ouviu. Estou apaixonada pela Morte.
-
Ana, você enlouqueceu de vez. Eu sabia que mandar você pro teatro ia...
-
Dançar com a morte foi a experiência mais enriquecedora que já tive. – Ana falava
olhando fixamente pro nada. Rendida, zumbificada, encantada. – Ela é linda,
michelle. Meu Deus, que mulher linda.
-
Além de tudo é um relacionamento lésbico? (risos)
-
Você é muito insensível. Não sei porque eu vim aqui falar isso pra você.
-
Vocês já transaram? (mais risos) Como foi? Com os dedos? Cortou as unhas
direitinho?
Ana fechou a cara. Com um semblante
sério e antes de ir embora disse:
-
Não vou ficar aqui me explicando pra uma pessoa que não sabe me ouvir. Pra
você, sou só um poço de sentimentos. Me sinto falando com o vento. Nem sei se
você gosta das minhas desgraças ou tem empatia mesmo. Na real, eu não sei quem
você é.
Ana sentia o vento acariciar o seu
rosto, conjuntamente com o sentimento de solidão e paz quando saiu andando da
casa de Michelle. As passagens do dia, os momentos sucessivos de ócio e dor, o
chiado da cabeça que pensa mais do que manda agir, a vida é uma caminhada e os
seus pés doíam. Até que ponto nós conhecemos as pessoas?
***
Eu estava deitada no sofá,
só de calcinha, à noite. Estava escuro em mim e eu não conseguia nada. Queria
me agarrar a tudo que se afastasse de mim, porque eu era noite. Não aguentava
ser noite, porque era muito denso. Me sufocava, me consumia, então resolvi
fazer coisas que me preenchiam de algo que não sabia ao certo o que. Talvez,
fosse cereja. Um suco de cereja, líquido, doce e que eu nem sei se existe
mesmo. Foram tantas coisas! Antes dava certo, mas agora, eu terei que escolher.
Tudo se dissipou no ar.
Dói.
Me enrolei com a vida e agora estava
chorando. Ela chegou. Abriu a porta da minha casa, junto com uma brisa fria e
leve. Com um vestido preto e uma confiança incomum, ela me chamou. “Vem comigo,
Ana”.
- Quem é você? A gente se
conhece? Como você entrou? – tava assustada, mas sentia algo que não sabia o
quê. Uma certa vibração no meu corpo que me levava a ela.
- Você sabe que me conhece,
só não me aceitou ainda. – falou a Morte com um sorriso malicioso. – Vem, Ana.
Caminha comigo só essa noite.
E com toda a desconfiança que uma
mulher pega de surpresa no seu apartamento teria, ela foi. Depois de vestir uma
roupa, Ana andou de mãos dadas. A Morte era delicada: sorria pra mulher
enquanto ela estava abismada com tudo o que iria perder.
- Não trabalhe com contra
fatos.
- mas, o mundo está cinza. –
a morte mudava as cores da noite por onde ela passava. Uns dizem que é
manipulação, para outros é apenas uma mudança de perspectiva, mas nada impede
de serem ambas.
- Criança, - a Morte colocou
a mão no rosto de Ana – o mundo sempre foi cinza... Porque se obriga a ser sol
quando se sente tão vulnerável?
- Eu não aguento o peso da
noite. Eu não consigo me suportar. Tenho medo de irem embora e me deixarem só.
A Morte parou e ficou de frente pra
Ana. – dança comigo? – ela estendeu a mão para Ana e as duas colaram seus
corpos. Estavam em uma praça vazia. Era por volta de 3:00 da madrugada e uma
música profunda começou a tocar. Não chegava a ser mórbida, mas invadiu a alma
de Ana de uma forma em que a fez ter uma consciência diferente do próprio corpo
e de como ela estava tratando ele.
Quando as duas pararam de dançar
ficaram se entre olhando.
- Nunca imaginei que a Morte
pudesse ser tão leve.
- Eu sou apenas uma passagem
de tempo. Geralmente, as coisas ficam mais pesadas quando não aceitam que o
tempo muda e que são exigidas novas posturas para novas etapas da vida.
- Você é tão linda. Porque
alguém não te aceitaria? – Sussurrou Ana, encantada com o vazio.
A Morte acariciou os cabelos da
mulher com suas mãos frias e a beijou languidamente. Apertou seu corpo contra o
da menina com sofreguidão e o que Ana sentira como alívio à princípio, virou desespero.
Ela sentia sua energia ser drenada de uma maneira frenética e quase desmaiou de
angústia. Empurrou a Morte com o resto de força que sobrou e caiu.
- Entendeu, Ana? Eu machuco.
Eu sou assim. Não posso chegar tão perto.
- Você é um monstro? – disse
Ana com muito esforço, empalidecida.
- Não. Eu sou cinza, meu
amor.
- Eu gosto de você, mas você
me machuca...
- Os finais doem.
- Você é o fim?
- Eu sou o fim e o começo.
Eu represento suas decisões.
- Eu quero ir pra casa.
- Mas você já está.
De repente, Ana se viu sozinha em sua sala
novamente, mas dessa vez com o lençol dentro de suas mãos e o que estava
espalhado, junto em uma pilha de papéis. A cor do seu corpo e a sua energia
voltaram ao normal. Ela jogou metade da pilha de sonhos no lixo.
- Tá passando da hora de
organizar isso aqui...
Shelle.

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