quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Delírio

Liliana Vess, planenalta. Magic.

- Eu me apaixonei pela Morte.
-Oi?
- É isso que você ouviu. Estou apaixonada pela Morte.
- Ana, você enlouqueceu de vez. Eu sabia que mandar você pro teatro ia...
- Dançar com a morte foi a experiência mais enriquecedora que já tive. – Ana falava olhando fixamente pro nada. Rendida, zumbificada, encantada. – Ela é linda, michelle. Meu Deus, que mulher linda.
- Além de tudo é um relacionamento lésbico? (risos)
- Você é muito insensível. Não sei porque eu vim aqui falar isso pra você.
- Vocês já transaram? (mais risos) Como foi? Com os dedos? Cortou as unhas direitinho?
          Ana fechou a cara. Com um semblante sério e antes de ir embora disse:
- Não vou ficar aqui me explicando pra uma pessoa que não sabe me ouvir. Pra você, sou só um poço de sentimentos. Me sinto falando com o vento. Nem sei se você gosta das minhas desgraças ou tem empatia mesmo. Na real, eu não sei quem você é.

            Ana sentia o vento acariciar o seu rosto, conjuntamente com o sentimento de solidão e paz quando saiu andando da casa de Michelle. As passagens do dia, os momentos sucessivos de ócio e dor, o chiado da cabeça que pensa mais do que manda agir, a vida é uma caminhada e os seus pés doíam. Até que ponto nós conhecemos as pessoas?

                                                         ***

          Eu estava deitada no sofá, só de calcinha, à noite. Estava escuro em mim e eu não conseguia nada. Queria me agarrar a tudo que se afastasse de mim, porque eu era noite. Não aguentava ser noite, porque era muito denso. Me sufocava, me consumia, então resolvi fazer coisas que me preenchiam de algo que não sabia ao certo o que. Talvez, fosse cereja. Um suco de cereja, líquido, doce e que eu nem sei se existe mesmo. Foram tantas coisas! Antes dava certo, mas agora, eu terei que escolher. Tudo se dissipou no ar.
Dói.
          Me enrolei com a vida e agora estava chorando. Ela chegou. Abriu a porta da minha casa, junto com uma brisa fria e leve. Com um vestido preto e uma confiança incomum, ela me chamou. “Vem comigo, Ana”.
- Quem é você? A gente se conhece? Como você entrou? – tava assustada, mas sentia algo que não sabia o quê. Uma certa vibração no meu corpo que me levava a ela.
- Você sabe que me conhece, só não me aceitou ainda. – falou a Morte com um sorriso malicioso. – Vem, Ana. Caminha comigo só essa noite.
          E com toda a desconfiança que uma mulher pega de surpresa no seu apartamento teria, ela foi. Depois de vestir uma roupa, Ana andou de mãos dadas. A Morte era delicada: sorria pra mulher enquanto ela estava abismada com tudo o que iria perder.
- Não trabalhe com contra fatos.
- mas, o mundo está cinza. – a morte mudava as cores da noite por onde ela passava. Uns dizem que é manipulação, para outros é apenas uma mudança de perspectiva, mas nada impede de serem ambas.
- Criança, - a Morte colocou a mão no rosto de Ana – o mundo sempre foi cinza... Porque se obriga a ser sol quando se sente tão vulnerável?
- Eu não aguento o peso da noite. Eu não consigo me suportar. Tenho medo de irem embora e me deixarem só.
          A Morte parou e ficou de frente pra Ana. – dança comigo? – ela estendeu a mão para Ana e as duas colaram seus corpos. Estavam em uma praça vazia. Era por volta de 3:00 da madrugada e uma música profunda começou a tocar. Não chegava a ser mórbida, mas invadiu a alma de Ana de uma forma em que a fez ter uma consciência diferente do próprio corpo e de como ela estava tratando ele.
          Quando as duas pararam de dançar ficaram se entre olhando.
- Nunca imaginei que a Morte pudesse ser tão leve.  
- Eu sou apenas uma passagem de tempo. Geralmente, as coisas ficam mais pesadas quando não aceitam que o tempo muda e que são exigidas novas posturas para novas etapas da vida.
- Você é tão linda. Porque alguém não te aceitaria? – Sussurrou Ana, encantada com o vazio.
          A Morte acariciou os cabelos da mulher com suas mãos frias e a beijou languidamente. Apertou seu corpo contra o da menina com sofreguidão e o que Ana sentira como alívio à princípio, virou desespero. Ela sentia sua energia ser drenada de uma maneira frenética e quase desmaiou de angústia. Empurrou a Morte com o resto de força que sobrou e caiu.
- Entendeu, Ana? Eu machuco. Eu sou assim. Não posso chegar tão perto.
- Você é um monstro? – disse Ana com muito esforço, empalidecida.
- Não. Eu sou cinza, meu amor.
- Eu gosto de você, mas você me machuca...
- Os finais doem.
- Você é o fim?
- Eu sou o fim e o começo. Eu represento suas decisões.
- Eu quero ir pra casa.
- Mas você já está.
          De repente, Ana se viu sozinha em sua sala novamente, mas dessa vez com o lençol dentro de suas mãos e o que estava espalhado, junto em uma pilha de papéis. A cor do seu corpo e a sua energia voltaram ao normal. Ela jogou metade da pilha de sonhos no lixo.
- Tá passando da hora de organizar isso aqui...

  Shelle.

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