Era uma noite escura e chuvosa, fazia frio. Um homem
cabisbaixo e atarracado divagava pela madrugada, andando com um guarda-chuva,
sem pressa . Notava-se a expressão dele de preocupado e ao mesmo tempo calmo e
sereno.
Ele se direcionou a um telefone público, discou um número e no
outro lado da linha, atendia um rapaz magro com um olhar terno e supreendido em
uma casinha simples, mas acolhedora.
- Alô?
- Olá! Como vai? Meu nome é historiador e eu queria falar com
o senhor tempo!
- Olá! É a sua primeira vez, não é?
- É siim!! Como soube? Eu quero saber como estão as coisas…
- Porque você não me reconheceu de cara. Todos reconhecem a minha voz quando ligam pra mim e eu atendo. Aliás, é tão raro
alguém ligar... A maioria de vocês
quando ligam pra mim é aquela melancolia! “Meu Deus, estou velho…!” Ou “Meu
Deus, que saudade dos meus tempos de criança…” Assim fica parecendo que só
trago dor. Em suma, a maioria das pessoas não sabem lidar comigo. Mas me pergunte rapaz,
o que você quer saber?
- Eu queria saber como vai a vida?
- Passageira.
- E o passado?
- Tá aqui no sofá, assistindo TV. – ouvia-se lá no fundo alguém
gritando – É OUTRO HISTORIADOR, TEMPO??? – o tempo colocou o telefone no colo
do ombro e gritou também: ÉÉÉÉ!!
- MANDA ELE FALAR COM AS MINHAS FONTES!
O tempo gentilmente recolocou
o telefone no ouvido.
- Bem, ele mandou você ir pras fontes, como sempre…
- é eu sei como é… Não da pra ter um
contato direto com ele… Mas e a memória?
- Ah, ela saiu de novo. Ela é assim mesmo, ninguém consegue
prende-la. Uma hora ta aqui, outra hora não e quase sempre aparece com um
visual diferente… Dizem que ela é rebelde, mas eu só acho ela espontânea demais
- Sei como é… kk e o mundo?
- pêra lá… O mundo é muito grande! Vc quer que eu responda
como vão as 7 bilhões de pessoas?! É tudo muito heterogêneo pra cada um, rapaz.
- Oh, desculpe…
- Tudo bem, mania de historiador de primeira viagem… Daqui pra
lá, se você estudar direitinho, você consegue fazer as perguntas recortadas.
Essa é a chave da porta do quarto da Clio.
- A Clio ta em todo lugar, mas eu tenho que procura-la. É tão
estranho! Rs’ e você?
- Eu? Eu sempre vou estar aqui. Seja limpando os móveis,
mudando a casa toda ou jogando poeira em todos os lugares… Não importa o que
aconteça, mesmo se você não estiver mais, eu sempre vou estar aqui, organizando,
bagunçando, mudando tudo.
Um conforto e uma inquietude invadiram o historiador no mesmo momento, o dia amanheceu, a chuva parou e finalmente ele se percebeu como agente da história.
Um conforto e uma inquietude invadiram o historiador no mesmo momento, o dia amanheceu, a chuva parou e finalmente ele se percebeu como agente da história.
- Obrigado…
Shelle

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