sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Apresentação

            Esse ano de 2019 trouxe várias surpresinhas pra gente, boas e ruins, dentre elas: me formei. Depois que a gente se forma é como ganhar um jogo que você achava que não iria acabar. A História foi por muito tempo meu porto seguro e meu inferno, e agora terminei o curso.
            A gente fica meio desorientado e sem emprego, mas tal hora a gente arranja um colégio. Ta escuro, mas a gente canta. Então, meu novo foco de pesquisa é História das homossexualidades no Brasil. Sim, gente viado e sapatão também são agentes históricos e é por conta desse silêncio ensurdecedor em relação a nossa história que vou pesquisar, sim. 
          Vocês vão se surpreender com o que aconteceu conosco e eu não estou falando de Call me by your name ou as novelas da Sarah Waters. Tô falando de realidades bastante contraditórias, de pessoas que mesmo sabendo que prejudicam todo um grupo assumem posturas conservadoras e moralistas. Falo de censura como uma das receitas pro sucesso e a ruína. Falo de Ditadura Militar, das bee se juntando pra resistir, brigando umas com as outras, do governo invadindo a casa das pessoas pra prende-las por "atentado ao pudor". Eu falo de tanta coisa.
            Vou registrar os livros que achei mais interessantes, meus avanços nas pesquisas e minhas loucuras antes das seleções. A gente sabe da nossa própria lucidez. É por isso que a gente continua.
       
Me deem uma chance. Aposto que vocês vão me curtir :*

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Delírio

Liliana Vess, planenalta. Magic.

- Eu me apaixonei pela Morte.
-Oi?
- É isso que você ouviu. Estou apaixonada pela Morte.
- Ana, você enlouqueceu de vez. Eu sabia que mandar você pro teatro ia...
- Dançar com a morte foi a experiência mais enriquecedora que já tive. – Ana falava olhando fixamente pro nada. Rendida, zumbificada, encantada. – Ela é linda, michelle. Meu Deus, que mulher linda.
- Além de tudo é um relacionamento lésbico? (risos)
- Você é muito insensível. Não sei porque eu vim aqui falar isso pra você.
- Vocês já transaram? (mais risos) Como foi? Com os dedos? Cortou as unhas direitinho?
          Ana fechou a cara. Com um semblante sério e antes de ir embora disse:
- Não vou ficar aqui me explicando pra uma pessoa que não sabe me ouvir. Pra você, sou só um poço de sentimentos. Me sinto falando com o vento. Nem sei se você gosta das minhas desgraças ou tem empatia mesmo. Na real, eu não sei quem você é.

            Ana sentia o vento acariciar o seu rosto, conjuntamente com o sentimento de solidão e paz quando saiu andando da casa de Michelle. As passagens do dia, os momentos sucessivos de ócio e dor, o chiado da cabeça que pensa mais do que manda agir, a vida é uma caminhada e os seus pés doíam. Até que ponto nós conhecemos as pessoas?

                                                         ***

          Eu estava deitada no sofá, só de calcinha, à noite. Estava escuro em mim e eu não conseguia nada. Queria me agarrar a tudo que se afastasse de mim, porque eu era noite. Não aguentava ser noite, porque era muito denso. Me sufocava, me consumia, então resolvi fazer coisas que me preenchiam de algo que não sabia ao certo o que. Talvez, fosse cereja. Um suco de cereja, líquido, doce e que eu nem sei se existe mesmo. Foram tantas coisas! Antes dava certo, mas agora, eu terei que escolher. Tudo se dissipou no ar.
Dói.
          Me enrolei com a vida e agora estava chorando. Ela chegou. Abriu a porta da minha casa, junto com uma brisa fria e leve. Com um vestido preto e uma confiança incomum, ela me chamou. “Vem comigo, Ana”.
- Quem é você? A gente se conhece? Como você entrou? – tava assustada, mas sentia algo que não sabia o quê. Uma certa vibração no meu corpo que me levava a ela.
- Você sabe que me conhece, só não me aceitou ainda. – falou a Morte com um sorriso malicioso. – Vem, Ana. Caminha comigo só essa noite.
          E com toda a desconfiança que uma mulher pega de surpresa no seu apartamento teria, ela foi. Depois de vestir uma roupa, Ana andou de mãos dadas. A Morte era delicada: sorria pra mulher enquanto ela estava abismada com tudo o que iria perder.
- Não trabalhe com contra fatos.
- mas, o mundo está cinza. – a morte mudava as cores da noite por onde ela passava. Uns dizem que é manipulação, para outros é apenas uma mudança de perspectiva, mas nada impede de serem ambas.
- Criança, - a Morte colocou a mão no rosto de Ana – o mundo sempre foi cinza... Porque se obriga a ser sol quando se sente tão vulnerável?
- Eu não aguento o peso da noite. Eu não consigo me suportar. Tenho medo de irem embora e me deixarem só.
          A Morte parou e ficou de frente pra Ana. – dança comigo? – ela estendeu a mão para Ana e as duas colaram seus corpos. Estavam em uma praça vazia. Era por volta de 3:00 da madrugada e uma música profunda começou a tocar. Não chegava a ser mórbida, mas invadiu a alma de Ana de uma forma em que a fez ter uma consciência diferente do próprio corpo e de como ela estava tratando ele.
          Quando as duas pararam de dançar ficaram se entre olhando.
- Nunca imaginei que a Morte pudesse ser tão leve.  
- Eu sou apenas uma passagem de tempo. Geralmente, as coisas ficam mais pesadas quando não aceitam que o tempo muda e que são exigidas novas posturas para novas etapas da vida.
- Você é tão linda. Porque alguém não te aceitaria? – Sussurrou Ana, encantada com o vazio.
          A Morte acariciou os cabelos da mulher com suas mãos frias e a beijou languidamente. Apertou seu corpo contra o da menina com sofreguidão e o que Ana sentira como alívio à princípio, virou desespero. Ela sentia sua energia ser drenada de uma maneira frenética e quase desmaiou de angústia. Empurrou a Morte com o resto de força que sobrou e caiu.
- Entendeu, Ana? Eu machuco. Eu sou assim. Não posso chegar tão perto.
- Você é um monstro? – disse Ana com muito esforço, empalidecida.
- Não. Eu sou cinza, meu amor.
- Eu gosto de você, mas você me machuca...
- Os finais doem.
- Você é o fim?
- Eu sou o fim e o começo. Eu represento suas decisões.
- Eu quero ir pra casa.
- Mas você já está.
          De repente, Ana se viu sozinha em sua sala novamente, mas dessa vez com o lençol dentro de suas mãos e o que estava espalhado, junto em uma pilha de papéis. A cor do seu corpo e a sua energia voltaram ao normal. Ela jogou metade da pilha de sonhos no lixo.
- Tá passando da hora de organizar isso aqui...

  Shelle.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Desencanto





Talvez, as estrelas nem sejam tão incríveis assim, quando vistas de perto.

Até elas tem seu lado escuro... E o que não tem? 
Elas estão longe... Elas sempre estão tão longe... 
Queria que elas ficassem perto, pra ver de que são feitas e o que as fez ficar assim.
Talvez, elas insistam em ficar distantes só pra manter o brilho... 
Algumas pessoas olham pras estrelas para se encontrar, mas eu só me perco mais entre um brilho e outro refletido do sol. 
Talvez, eu não devesse olhar tanto pra elas, afinal, são só estrelas, distantes e sempre longínquas estrelas.

  Shelle

sábado, 5 de dezembro de 2015

Sonho

Não quero sonhar sozinho,
Preciso da tua companhia.
Juntos no nosso ninho,
Longe da cruel melancolia
E perto do real caminho.

Sonhar sozinho é apenas
um sonho, sonhar juntos é
o começo da realidade.

Miguel de Cervantes ( Dom Quixote)

Desenterrando uma flor



Há uma flor no meu jardim
Há um jardim na minha flor
Daria tudo pra entrar dentro dela e ver
Quantas dela diferentes ela poderia ser

Uma pedra na visão
Uma imensidão no olhar
Todos a vêem, muitos se encantam
Somente ela que não.

A superfície é sempre mais sólida.
E o interior não é lido.
Só no final, eu descubro.
Nem vinho, nem luz.

É só uma rosa que nada traduz.
Talvez, nada realmente foi vivido.


  Shelle

Conversa com o tempo

Era uma noite escura e chuvosa, fazia frio. Um homem cabisbaixo e atarracado divagava pela madrugada, andando com um guarda-chuva, sem pressa . Notava-se a expressão dele de preocupado e ao mesmo tempo calmo e sereno.
Ele se direcionou a um telefone público, discou um número e no outro lado da linha, atendia um rapaz magro com um olhar terno e supreendido em uma casinha simples, mas acolhedora.
- Alô?
- Olá! Como vai? Meu nome é historiador e eu queria falar com o senhor tempo!
- Olá! É a sua primeira vez, não é?
- É siim!! Como soube? Eu quero saber como estão as coisas…
- Porque você não me reconheceu de cara. Todos reconhecem a minha voz quando ligam pra mim e eu atendo. Aliás, é tão raro alguém ligar... A maioria de vocês quando ligam pra mim é aquela melancolia! “Meu Deus, estou velho…!” Ou “Meu Deus, que saudade dos meus tempos de criança…” Assim fica parecendo que só trago dor. Em suma, a maioria das pessoas não sabem lidar comigo. Mas me pergunte rapaz, o que você quer saber?
- Eu queria saber como vai a vida?
- Passageira.
- E o passado?
- Tá aqui no sofá, assistindo TV. – ouvia-se lá no fundo alguém gritando – É OUTRO HISTORIADOR, TEMPO??? – o tempo colocou o telefone no colo do ombro e gritou também: ÉÉÉÉ!!
- MANDA ELE FALAR COM AS MINHAS FONTES!
O  tempo gentilmente recolocou o telefone no ouvido.
- Bem, ele mandou você ir pras fontes, como sempre…
- é eu sei como é… Não da pra ter um contato direto com ele… Mas e a memória?
- Ah, ela saiu de novo. Ela é assim mesmo, ninguém consegue prende-la. Uma hora ta aqui, outra hora não e quase sempre aparece com um visual diferente… Dizem que ela é rebelde, mas eu só acho ela espontânea demais
- Sei como é… kk e o mundo?
- pêra lá… O mundo é muito grande! Vc quer que eu responda como vão as 7 bilhões de pessoas?! É tudo muito heterogêneo pra cada um, rapaz.
- Oh, desculpe…
- Tudo bem, mania de historiador de primeira viagem… Daqui pra lá, se você estudar direitinho, você consegue fazer as perguntas recortadas. Essa é a chave da porta do quarto da Clio.
- A Clio ta em todo lugar, mas eu tenho que procura-la. É tão estranho! Rs’ e você?
- Eu? Eu sempre vou estar aqui. Seja limpando os móveis, mudando a casa toda ou jogando poeira em todos os lugares… Não importa o que aconteça, mesmo se você não estiver mais, eu sempre vou estar aqui, organizando, bagunçando, mudando tudo.

Um conforto e uma inquietude invadiram o historiador no mesmo momento, o dia amanheceu, a chuva parou e finalmente ele se percebeu como agente da história.

- Obrigado…
   
Shelle

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Indas e vindas de uma interpretação

René Magritte - A traição das Imagens

           Ainda me lembro dos meus tempos de 5ª série, da professora de artes super religiosa e dessa imagem nos meus livros. É curioso! Depois de um tempo, no 2º ano do Ensino Fundamental, tive de novo essa imagem no meu livro didático, mas dessa vez, contextualizando-a na disciplina de literatura.
            Engraçado que mesmo sabendo em que o Magritte estava vinculado, seu tempo e corrente artística, eu não entendia o que era isso…
          “Tá, não é um cachimbo, ok, mas o que é, então?” Kkk Falavam tudo vinculado a figura, menos o significado que o artista quis passar. Eu ficava imaginando mil coisas: “ah, na verdade ele quis desenhar uma montanha!”  “Já sei: ele quis alertar sobre problemas no pulmão! Isso não é um cachimbo, é um câncer…”
          Pra ser sincero nunca gostei muito dessa pintura. Eu não entendia e me incomodava o fato de não saber o que era aquilo… Só no meu segundo semestre da faculdade que fui ler um livro da Pesavento e me deparei com a figura de novo, mas finalmente com uma explicação: isso não é um cachimbo, é a representação de um. E é disso que se baseia a apaixonante História Cultural: representações. Bem, atualmente, eu acho a pintura genial e instigante… Mas como eu não tive essa interpretação antes?! .-.